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28.3.07

Rural vs. Urbano II

As comunidades rurais são pequenas comunidades de uma ou duas centenas de pessoas em que todos se conhecem. O facto de todos se conhecerem torna possível o controlo da reputação de cada indivíduo pelos restantes. É assim possível que prevaleça uma ética de pequena comunidade em que todos se ajudam uns aos outros. Não é estranho que essa ética seja aquela que é preconizada pelas religiões tradicionais porque as sociedades rurais tradicionais, as instituições tradicionais e as religiões tradicionais são o produto do mesmo processo evolucionário.

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As comunidades urbanas são comunidades de milhares ou milhões de indivíduos. Não é possível que estes indivíduos se conheçam todos uns aos outros, o que favorece o free riding. Uma sociedade urbana que viva de acordo com os princípios das religiões tradicionais, que tendem a preconizar o altruismo como comportamento virtuoso, está condenada à tragédia dos comuns porque, como ninguém se conhece pessoalmente, não existem registos fidedignos de reputação e a retaliação (descentralizada) em relação aos prevaricadores não pode ser utilizada como meio para punir o free riding.

Rural vs. Urbano

Neste post, Pedro Arroja compara a ordem prevalencente nos países protestantes com a (des)ordem dos países católicos. Mas será a religião o elemento principal que explica as diferenças? Os países protestantes são também países que têm sociedades urbanas num estado de maturação muito mais avançado do que a maior parte dos países católicos. Este factor, só por si, explica porque é que podemos encontrar em países protestantes tradições e comportamentos adequados à vida num ambiente urbano que não são possíveis de encontrar em países católicos onde há uma geração atrás a maior parte da população vivia num meio rural. Note-se que a transição de uma sociedade rural para uma sociedade urbana foi feita de forma desordenada em todos os países, sejam protestantes ou católicos, tendo sido mais desordenada onde essa transição foi mais brusca.

12.3.07

Sistema democrático tipo aldeia portuguesa

É interessante verificar que os regimes da maior parte dos países protestantes têm elementos não democráticos que a democracia portuguesa não tem. Portugal tem um chefe de estado que é eleito por sufrágio universal, grande parte dos países protestantes são monarquias. Portugal é um estado unitário, os países protestantes têm uma forma ou outra de regionalização. Portugal tem uma única câmara de representantes eleita, alguns dos países protestantes têm duas. O Reino Unido ainda tem uma câmara com membros não eleitos. Portugal tem um sistema eleitoral plurinominal, grande parte dos países protestantes tem sistemas mistos ou uninominais. Na verdade será difícil encontrar um país protestante com um regime tão democrático como o português. Por isso, antes de atribuirmos os problemas portugueses à incompatibilidade cultural com a democracia, valeria a pena tentar perceber porque é que fomos logo escolher o regime democrático com menos controlos não democráticos. Se calhar alguém entendeu que, como lá na aldeia esses controlos não eram necessários para nada, o país também poderia passar sem eles. No fundo, alguém entendeu que o sistema democrático tipo aldeia portuguesa é o que mais se adequa à nossa cultura.

Um país não é uma aldeia

O catolicismo português não é uma imposição da Igreja de Roma ao povo. Ao fim de centenas de anos, a religião não é uma criação intelectual dos teólogos nem uma verdade revelada aos santos e aos apóstolos. É o produto da evolução cultural. Como tal, encontra-se adaptada não apenas à cultura do povo, mas também à realidade natural e económica em que ele viveu durante séculos. Essa realidade é a aldeia de uma centena de pequenos agricultores, na qual todos se conhecem e onde todos têm mais ou menos o mesmo status. O traço cultural que mais influencia os sentimentos políticos dos portugueses não é o catolicismo intelectualizado, mas sim o igualitarismo característico de uma pequena aldeia. Em política, aquilo que os portugueses querem é reproduzir em ponto grande a política igualitária da sua pequena aldeia. E a verdade é que têm sido bem sucedidos. Infelizmente, um país não é uma aldeia.