1.2.07

O Discurso de Pinho

As indignações são fáceis, neste cantinho do outro lado do mundo. Pinho, um ministro que é muitas vezes infeliz, tanto na decisão como na indecisão, e que nem sempre selecciona as melhores palavras, ensaiou num discurso algum marketing de Portugal. E disse a única verdade disponível que não afugenta os investidores estrangeiros. Os nossos salários estão abaixo da média dos salários da UE. Logo, o Dr. Carvalho da Silva, no seu habitual provincianismo atávico, correu para todos os microfones em protesto universal contra o desvendar do segredo, que impedirá que um qualquer investidor estrangeiro distraído pague salários escandinavos em terras lusas.

Mas o que é que queriam que ele dissesse? As outras verdades não soam muito bem. Imaginem este discurso alternativo:###


"Senhores empresários, por favor, invistam em Portugal. Não há outro país como o nosso. Podem criar a empresa numa hora, mas depois, enquanto aguardam longos anos por dezenas de licenças, autorizações, certidões, permissões, registos, despachos e alvarás, terão a oportunidade única de conhecer detalhadamente o nosso país, as nossas praias e a nossa gastronomia. Garantimo-vos que, se e quando obtiverem as últimas licenças, as primeiras já caducaram, o que vos permitirá criar ligações de amizade perenes com os responsáveis de vários organismos públicos. Vão encontrar dezenas de entidades que não conversam umas com as outras a impor-vos transformações nos vossos projectos, todas elas contraditórias de tal modo que se divertirão imenso a tentar desatar os nós para descobrir uma solução que satisfaça a todas - é como um puzzle, um grande divertimento, em que nunca se sabe se é possível chegar ao fim. Em nenhum outro país encontrarão tantos responsáveis interessados no vosso projecto e com tanta vontade de contribuir para o seu sucesso. Vão afrontar os pequenos poderes de meia dúzia de institutos ambientais, de câmaras municipais em que uns vereadores irão contrariar as decisões do outros, sempre no intuito de vos ajudar. Também terão a colaboração das Juntas de Freguesia, organismos do Ministério da Economia, do Ministério do Trabalho, do Ministério das Finanças, do Instituto de Emprego e de mais mais dúzia de entidades reguladoras que vos darão bastante trabalho durante todo o tempo em que se mantiverem no nosso país. Vão também ter o prazer de encontrar as leis do trabalho mais rígidas da Europa, o que vos permitirá prescindir de uma gestão de recursos humanos moderna. Divertir-se-ão como no cinema com uma autoridade fiscal especializada no “paga agora e discute depois”, que vos pedirá para liquidar impostos que já pagaram e outros que nunca imaginariam pagar. Poderão surpreender os vossos amigos na China, deixando-os de olhos em bico, descrevendo-lhes as leis tributárias portuguesas, contando-lhes histórias de impostos que eles nunca ouviram falar, como o Imposto de Selo e vangloriarem-se dos métodos utilizados para ultrapassar a legislação mais inibidora do investimento e do desenvolvimento do mundo moderno. Os vossos conterrâneos vão ficar amarelos de inveja quando lhes contarem que em Portugal, não há preocupações com a justiça. Quaisquer problemas legais só serão resolvidos na próxima geração. E finalmente, em Portugal encontrarão os sindicatos mais retrógrados da Europa, que vos ajudarão a encerrar a empresa mais depressa minimizando-vos os prejuízos quando se quiserem ir embora para outro lado qualquer.”
Bastaria dizer isto. Qualquer um entenderia que com este cenário, os nossos salários não poderiam ser grande coisa.

Tudo como dantes

Segundo a SIC- Notícias
http://sic.sapo.pt/online/homepage

*A Guiné-Bissau condecorou Fidel Castro com a ordem de Amílcar Cabral, a mais alta distinção dos pais, por ocasião da visita a Havana do primeiro-ministro Aristides Gomes. (...) Aristides Gomes agradeceu a ajuda de Fidel Castro para o processo de independência e para o desenvolvimento da Guiné-Bissau. » Para a independência certamente que Fidel deu o seu contributo. Mas quanto a desenvolvimento Aristides Gomes está a referir-se exactamente a quê?

*O site da Sic Notícias é um também bom indicador da cotação mediática dos ditadores. Assim temos:
«Augusto Pinochet O perfil do antigo ditador chileno»
«Casado com a pátria O perfil de Hugo Chávez»
«Fidel Castro A vida do mítico Presidente de Cuba»

Por fim graças e não apenas na SIC voltaram as imagens dos palestinianos feridos, das ambulâncias e dos gritos das mulheres. Durante semanas os diversos movimentos palestinianos têm combatido entre si mas desses combates pouco ou nada nos chegou. Agora que Israel respondeu a um atentado suicida já tivemos direito à sequência do costume. Enfim tudo como dantes

Cá como lá

O aborto terapêutico foi referendado na Nicarágua e naquela ditosa pátria os eleitores não só elegeram Daniel Ortega como votaram maioritariamente Não no referendo sobre o aborto terapêutico. Os argumentos esses são velhos conhecidos de todos nós:


«TENEMOS QUE MUCHAS MUJERES QUIEREN PROMISCUIRSE Y CUANDO ESTAN EMBARAZADAS BUSCAN LA MEJOR ALTERNATIVA EL ABORTO TERAPEUTICO Y MUCHAS VECES ALIADAS POR AMISTAD CON LOS MEDICOS LO PRACTICAN. SI NO QUIEREN HIJOS Y QUIEREN PROMISCUIDAD ENTONCES QUE LO EVITEN PERO COMO NO LO HACEN POR ESO LUCHAN POR EL ABORTO TERAPEUTICO MUCHAS DE ELLAS NO TODAS, ALGUNAS EN VERDAD QUE LO NECESITAN PERO POR ESO HABRIA QUE ESTUDIAR BIEN COMO APLICAR ESA LEY.»
(www.elnuevodiario.com.ni/2006/11/03/politica/32938)
Seja na Nicarágua seja em Portugal concede-se sempre que «ALGUNAS EN VERDAD QUE LO NECESITAN» mas por causa das outras, aquelas «MUCHAS MUJERES» que «QUIEREN PROMISCUIRSE» há que «ESTUDIAR BIEN COMO APLICAR ESA LEY»

Cá como lá o problema é sempre o mesmo: algumas mulheres até poderiam ter razões para abortar mas o problema é que muitas mais mulheres se querem promiscuir. Enfim a promiscuidade é a nossa cruz global.

Grão a grão...

«Carod dice que Cataluña establecerá «relaciones bilaterales» con otros países» (ABC)
«Carod reclama participar en las cumbres con Portugal y Marruecos» (EL Pais)

Presume-se que os outros países nada têm a dizer.

Manuel Pinho

Peculiares tempos estes em que nos indigna não que um ministro minta mas sim que ele diga a verdade

Aborto e o argumento demográfico

Felizmente esta campanha está a contribuir para descredibilizar o argumento demográfico. Habitualmente a demografia serve para justificar a transferência de rendimento dos estéreis para os não estéreis ou daqueles que não estão em idade fértil para os que estão em idade fértil. Tudo para compensar os efeitos negativos do estado social na natalidade e para salvar a Segurança Social. Não funciona, mas é politicamente popular. Só que no caso do aborto o argumento demográfico não pega. Quase toda a gente percebe proibir o aborto para salvar a Segurança Social ou para aumentar o número dos membros da Nação é um absurdo. É até ridículo que gente que pretende realçar a individualidade do feto procure ao mesmo tempo justificar a proibição do aborto alegando o feto precisa de ser usado como instrumento para salvar a colectividade. Não se consegue imaginar nada mais totalitário e desumano. Espero por isso que os defensores do NÃO continuem a gastar e a descredibilizar o argumento demográfico. É um favor que prestam à sociedade.

O reconhecimento da realidade é sempre louvável

Mais tarde ou mais cedo tinha que acontecer. Aconteceu mais cedo. O Ministro Pinho foi à China vender Portugal como um país de mão de obra barata.