20.12.07

Sem desculpar *

Pacheco Pereira falou do Porto, das suas personagens, dos seus crimes, das suas conivências políticas e policiais.
Citou casos.
Desde o ‘Eu, Carolina’ até às agressões a jornalistas quase sempre impunes. Indicou o elemento comum: o ‘meio’ do futebol, insinuando que a questão se centra no FC Porto.
A tese está mal fundamentada. Todos os vícios que nomeia, sobretudo o da inacção da Justiça, acontecem numa enorme variedade de situações, com futebol ou sem ele. Depois, o facto de alguns criminosos serem adeptos do FCP, à partida, não é indício bastante – como alguém dizia num blogue, “quase que aposto que mais de 80% dos criminosos do Porto são do FCP. Assim como mais de 80% dos médicos, dos juízes, dos estudantes e dos operários da construção civil”.

Claro que seria útil uma total demarcação daquela gente. Mas o que nunca aceitarei é que o meu clube seja ‘aquela gente’.

* Publicado ontem no Correio da Manhã

A sério? Xiii, não sabia....

«O insucesso escolar é potenciado, em muitas escolas [públicas], pela escolha dos alunos com base no seu aproveitamento escolar e na sua origem social.»

«
Os estudiosos apontam a existência de estabelecimentos de ensino muito próximos um do outro, mas com populações estudantis muito distintas, fruto de uma selecção que tanto dá origem a "nichos de excelência" como a "guetos de exclusão".»

«....
a escolha dos estabelecimentos de ensino é, cada vez mais, objecto de lutas e pressões sociais.»

«
numa das escolas (frequentada basicamente por alunos de classes sociais desfavorecidas), 50% dos alunos tinham sido recusados noutro estabelecimento, normalmente aquele preferido pelas classes sociais média ou alta.»

«
Em muitas escolas, numa lógica perversa, constituem-se turmas com filhos de professores, médicos e juristas e outras onde predominam alunos problemáticos.»

(no JN)

entretanto....

Verín e Chaves constituem a primeira «Eurocidade»

19.12.07

Da província como visão

Sócrates diz que os críticos da sua acção governativa tem uma «visão provinciana ultrapassada».
Tenha-se em atenção no entanto que tal sentença não tem um carácter absolutamente negativo. Somente na parte em que refere ser «ultrapassada». E não a «visão provinciana» em si mesmo. Pois ainda ontem confessava, «C’est vrai, je suis un provincial». Mas dos bons, não dos «ultrapassados».

100 milhões de prejuízo




«Uma aventura que custou mais de 100 milhões de euros ao país. Convém recordar que o presidente da Águas de Portugal [AdP] à época chamava-se Mário Lino e que o ministro que deu o 'agrément chamava-se José Sócrates»

Desemprego em Espanha



Quem acha que não há relação entre Salário Mínimo e Desemprego pode tentar informar-se sobre o que aconteceu nos finais dos anos 70 e início dos anos 80 aos nuestros hermanos. Por cá, era costume dizer-se: Em Espanha já ganham o dobro do que nós ganhamos.

Do pastorinho da serra da Estrela aos milhares de sem-abrigo*

De repente olho para a televisão e ouço dizer que dois mil e quinhentos sem abrigo da capital vão ter consoada graças à boa vontade de inúmeros lisboetas. Sendo certo que nesta matéria os números são sempre muito duvidosos, não me parece que, em Lisboa, os sem-abrigo existam aos milhares. Rondarão os mil - dizem aqueles que nas instituições e na CML acompanham estas matérias. Um número provavelmente com tendência para crescer - acrescento eu - face às mudanças recentemente anunciadas para os 4585 doentes mentais internados em Portugal: o fecho de três dos seis hospitais psiquiátricos actualmente existentes, a concentração de outros e um clima de guerra aberta entre a tutela e as instituições particulares de solidariedade social (IPSS's) que acompanham grande parte destes doentes não são o clima adequado para alterar positivamente o que quer que seja. ###
Ensina a experiência doutros países, nomeadamente dos EUA, que o reverso destas exaltações e enfrentamentos na saúde mental é o aumento do número de pessoas a viver na rua pois na realidade não existem as tais famílias a que idilicamente os doentes deveriam retornar e sobretudo é muito mais fácil fechar hospitais psiquiátricos do que criar os centros de rectaguarda que deveriam acompanhar estas pessoas.
É claro que nada disto vem a jeito quando se fala de pessoas sem-abrigo. As televisões dizem que dois mil e quinhentos sem-abrigo vão consoar em Lisboa. Mas até podiam dizer que eram cinco mil. Eles são apenas uma parábola. O sem-abrigo está para os dias de hoje tal como os pastorinhos da serra da Estrela estiveram para os meninos dos anos 60. Tínhamos de comer por causa do pastorinho, de agradecer os brinquedos - mesmo as mais hediondas peças de roupa - por causa do pastorinho e sobretudo a nossa traquinice transformava-se quase numa blasfémia quando confrontada com a postura adulta do pastorinho.
Nas primeiras vezes que subi à dita serra ainda tentei vislumbrar a sombra do pastorinho. Mas o mundo felizmente era grande e eles, com grande horror das élites, tinham trocado a natureza agreste da serra pela artificialidade das cidades. Na verdade pouco importava que víssemos ou não o pastorinho. Ele propriamente dito pouco interessava. O que interessava sim era que aquela criança humilde e trabalhadora era um repositório de virtudes que contrastavam grandemente com os desmandos futuros que a nossa irrequietude, provavelmente resultado duma infância por comparação privilegiada, já deixava adivinhar. De igual modo o sem-abrigo de hoje é também ele não uma pessoa mas sim uma alegoria.

Cada vez há menos paciência e tolerância para quem reivindica. Os sindicatos são vistos como um móvel fora de moda. Os grevistas quase têm de pedir desculpa por tomarem uma atitude anterior às maravilhas do choque tecnológico. Os organizadores de qualquer protesto passaram à qualidade de nódoa nos grandes momentos. Para todo e qualquer problema propõe-se fazer e divulgar listas negras.
Alheios a tudo isso, sem que se lhes vislumbre laivos de contestação ou perigosidade, os sem-abrigo riem para as câmaras de televisão, enquanto agradecem as canções e o bolo-rei. O sem-abrigo de hoje configura-se assim como a figura ideal para os bons sentimentos dum tempo em que o verbo reivindicar está arrumado na gaveta.

*PÚBLICO, 18 DE DEZEMBRO