23.5.07

Re:Anos Oitenta

A propósido dos dadores de sangue, o Pedro Morgado escreve os seguinte:

3º Existem comportamentos que implicam aumento do risco de se contraírem certas doenças, mas o impacto desses comportamentos é independente da orientação sexual (o risco de contrair HIV no coito anal entre heterossexuais é igual ao risco no coito anal homossexual);


Isto está totalmente errado. Está errado porque é necessário considerar não apenas a probabilidade de transmissão através do coito anal, mas também a probabilidade de se praticar coito anal e a probabilidade de a outra pessoa estar contaminada. O risco do coito anal só seria o mesmo se homossexuais e heterosexuais tivessem a mesma probabilidade de estar infectados.
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Assim, a probabilidade de um homem que pratica coito anal com outro homem se contaminar a si e aos bancos de sangue é maior que a pobabilidade de acontecer o mesmo a um homem que pratica coito anal com uma mulher. Isto porque a probabilidade de um homem que faz sexo anal com outro homem estar contaminado é maior que a probabilidade de uma mulher que faz sexo anal com um homem. Em geral, homens que fazem sexo com homens têm mais probabilidade de estar contaminados que mulheres que fazem sexo com homens.

Há ainda um problema adicional: quanto mais específicas forem as perguntas dos inquéritos maior é a pobabilidade de os inquiridos fugirem à verdade. Por razões que deviam ser óbvias, não se pode andar a perguntar a todos os dadores pormenores sobre a sua vida sexual. E por isso é que se usam perguntas gerais que não permitem detectar casos demasiado particulares. E aquilo que se pegunta é o sexo do parceiro. O sexo do parceiro não informa sobre a prática sexual realizada, pelo que a análise tem que ser probabilistica. Um homem que declare ter tido sexo com outro homem tem, em média, mais probabilidade de ter realizado sexo anal do que um homem que declare ter tido sexo com uma mulher.

Conjugando todas as informações conclui-se facilmente que um homem que declare ter tido sexo com outro homem tem mais probabilidade de ter feito sexo anal e mais probabilidade de o ter feito com uma pessoa contaminada pelo que tem mais probabilidade de estar contaminado. O facto de ter mais probabilidade de estar contaminado não implica que o esteja, nem implica que tenha tido sexo anal nem que o seu parceiro esteja contaminada. Mas as probabilidades servem para lidar com informação escassa e não personalizada para que se possa tomar a decisão que estatisticamente mais correcta. De uma opção tomada com base em estatísticas não se pode concluir nada sobre casos particulares nem se pode concluir daí que os homossexuais devem ser menorizados de alguma forma. Mas isso deveria ser óbvio. Pelos vistos não é.