O que é existe de comum entre:
- uma analogia de João Paulo II com o actual seleccionador de futebol?
- a confusão da liberdade com o exercício de um cargo de autoridade desprovido do dever mínimo de accountability?
- a pretensa constatação de que o país nada ganhou com a entrada na UE e, logo, Portugal está no mesmo ponto de há 20 anos?
- o esforço de reinventar o Estado Novo, vendo em Salazar e no seu regime exemplos de liberalismo, de devoção ao Estado Mínimo e de estima pela liberdade?
Aparentemente o único elo entre estes contra-sensos é o absurdo volitivo. Quase compulsivo. A tentativa de chocar o mais possível forçando a lógica, a história e a verdade. Antigamente, chamava-se a isto "revisionismo". Eu prefiro a qualificação mais simples de "disparate". Que não merece refutação fundamentada - já que as evidências se comprovam a si mesmas.
26.3.07
há espaço para todos
Até à década de 80, quando ficou assente a nossa adesão à CEE, cujo cinquentenário estamos a festejar tão displicentemente, os descontentamentos populares e as crises políticas que originavam resolviam-se, em Portugal, a golpes de força uns tentados, outros bem sucedidos. Hoje, graças à estabilidade europeia, resolvem-se por formas ritualizadas, não agressivas: a eleição de Salazar, símbolo máximo contra o qual se erigiu a III República, como o «maior português de sempre»; coligações juvenis da extrema-direita com a extrema esquerda em listas anti-sistémicas, para conquistar associações académicas; artigos de protesto contra as oligarquias dominantes, como o que Rui Tavares escreveu hoje no Público. Para explicar a presença de elementos do BE na lista da juventude do PNR, Rita Vaz, candidata a presidente, esclarece que «todos podem participar». Pois podem. Até porque vai haver cada vez mais espaço para este tipo de «colaborações».Uma notícia ou uma nota oficiosa?
«Rui Martinho, que até Setembro último esteve à frente do conselho directivo do Instituto de Seguros de Portugal (ISP), foi nomeado presidente do conselho de administração da seguradora Tranquilidade, na assembleia geral realizada ontem. O gestor vai exercer funções não executivas, passando a ocupar o cargo até aqui preenchido por Luís Redondo Lopes, que passa a presidente da mesa da assembleia geral da seguradora. Apesar de ir desempenhar as funções de presidente não executivo de uma empresa supervisionada pelo ISP, que Rui Martinho abandonou há seis meses, não está em causa a violação do regime de incompatibilidades da entidade de supervisão. Relativamente a este tema, os estatutos do Instituto remetem para a Lei 12/96, que apenas impede os titulares de cargos de soberania ou políticos de desempenharem funções em empresas privadas que tenham tutelado durante um período de três anos após abandonarem aquele cargo. Depois de sair do ISP, Rui Martinho integrou o Espírito Santo Financial Group, com a função de consultor da administração da holding que detém a Tranquilidade. Antes do ISP, o gestor esteve à frente do Deutsche Bank em Portugal. »
O maior dos portugueses
Salazar ganhou a eleição dos Grandes Portugueses com 41% dos votos. Como democratas que somos, temos que aceitar o resultado.
Estar lá

Qual é a função principal da autoridade suprema da Igreja, o Papa? E de um pai de família, que é a autoridade suprema da casa? E do patrão, a autoridade suprema da empresa? E a de um Presidente da República, que é a autoridade suprema dum país? A resposta é: estar lá.###
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Na nossa tradição, é esta a função principal da autoridade suprema de uma instituição - estar lá - e o Papa dá o exemplo. Ele não tem de se envolver em funções executivas, nem deve envolver-se nelas, porque elas desgastam-lhe a autoridade. Essas funções, ele delega nos cardeais e nos bispos, tal com o pai delega na mãe, o patrão nos empregados, o Presidente nos seus assessores.
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A autoridade suprema está lá para se certificar que as regras da instituição são cumpridas e a sua intervenção é sempre de última instância e somente quando as regras sofrem uma ameaça séria de serem violadas. E, neste caso, a sua intervenção tem de ser definitiva.
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Neste aspecto, o Papa João Paulo II deu um exemplo admirável do cumprimento das suas funções. Nos meses que antecederam a sua morte, quando muitos argumentavam em silêncio que ele devia renunciar ao lugar e ser substituído por outro Papa, ele manteve-se imperturbável no seu cargo.
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Semana após semana, os sinais vitais iam enfraquecendo a olhos vistos, a certa altura ele já mal podia acenar, menos ainda falar. Mas, ainda assim, ele aparecia em público, como que a dizer a todos: "Eu continuo aqui no cumprimento das minhas funções".
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E ele cumpriu as suas funções - que eram as de estar lá - até ao limite do seu mandato, que foi o momento do seu último suspiro. Uma autoridade livre nunca renuncia.
25.3.07
Felipão

A chamada "geração de ouro" do futebol português nunca conseguiu resultados significativos ao nível da selecção nacional senior. Caíu, junta pela última vez, com uma performance medíocre no Mundial da Coreia e do Japão em 2002.
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A partir de então, enquanto cada vez menos jogadores pertencentes à "geração de ouro" faziam parte da selecção, e mais jogadores novos nela entravam, mais a selecção progredia. Foi segunda classificada no Europeu de 2004, quarta no Mundial de 2006. Subiu nos rankings internacionais. E ontem, nas qualificações para o Europeu de 2008, sem ninguém da "geração de ouro" na equipa, passeou-se perante a Bélgica, ganhando por 4-0.
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Milagre? Não - a autoridade do seleccionador.###
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Nos países católicos, a autoridade centralizada e pessoalizada é essencial para o desempenho extraordinário. E Luís Felipe Scolari que os brasileiros, não despropositadamente, baptizaram de Felipão é o exemplo acabado dessa autoridade centralizada e livre capaz de fazer transcender os povos de tradição católica, de outro modo sempre humildes e derrotistas.
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Uma autoridade exige, em primeiro lugar, uma vida de boas obras. E Scolari possuía, à sua chegada a Portugal, um currículo carregado, no qual o item mais recente era o de ter sido campeão mundial pelo Brasil - uma país católico que, sendo sempre candidato ao título, há muito o jejuava.
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Porém, o reconhecimento de uma autoridade nos países católicos exige mais do que experiência, currículo, e naturalmente, idade. Exige saber praticar a autoridade. E Felipão sabe fazer isso como poucos.
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A primeira coisa que faz onde chega é excluír da selecção um jogador de craveira excepcional, com grande influência no balneário, mas que já ultrapassou o topo da sua performance. Fê-lo com Romário no Brasil e fê-lo com Vítor Baía em Portugal (e, em menor medida, com João Pinto). A mensagem não podia ser mais clara: "Aqui a única autoridade - o Papa - sou eu".
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Durante um tempo, por virtude dessas exclusões polémicas, resiste, com um silêncio inabalável, aos protestos da opinião pública e dos jornais. Nunca responde às críticas, menos ainda aos insultos, e a sua decisão mantém-se inalterável. Tendo conseguido subtraír-se à escravidão da opinião pública, a partir daí ele tornou-se uma autoridade livre.
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Num país católico, uma autoridade e livre - à semelhança do Papa - é capaz de mobilizar todo o povo e de conseguir feitos extraordinários. Na realidade, os resultados logo começaram a aparecer e, de cada vez, a autoridade de Felipão se tornava mais livre e, em consequência, melhores eram os resultados.
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Um jogador que proteste numa entrevista a um jornal por se julgar muito bom e não ser convocado, ou qualquer pressão da imprensa para convocar um jogador, significam que, enquanto os protestos ou a pressão durarem, o jogador não vai ser convocado. Com o tempo, os jogadores vão aprender e a imprensa desportiva também. Vão aprender a calar-se e a respeitar a autoridade do seleccionador.
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Quaresma era um caso típico. No final do jogo, em entrevista à televisão, Felipão afirmou-se muito satisfeito com a exibição do jogador - pois não!. E acrescentou um pormenor curioso: "Dei-lhe toda a liberdade". Claro, bem ao jeito da tradição católica, jogador (ou clube de jogador) que não consteste a sua autoridade, tem toda a liberdade. Da mesma forma que, num país católico, quem não contesta a autoridade do Papa tem toda a liberdade para dar largas ao seu catolicismo ou à ausência dele, ou até para o detestar.
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Scolari fala pouco em público, uma faceta essencial para guardar a sua autoridade. Em certa altura recente cometeu, na minha opinião, o erro de participar numa campanha publicitária, suponho que em favor de um Banco. Foi um erro, porque uma autoridade nunca apela à multidão.
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Ele trata os jogadores como se fossem filhos dele. Se os jogadores falham e os resultados não acontecem, ele assume as responsabilidades e nunca critica os jogadores. Pelo contrário, defende-os sempre e enaltece-os. Se ele tem de tecer algum comentário desfavorável em público acerca de um jogador, o caso está mal parado - para o jogador.
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Como autoridade livre que é, ele permitiu-se ontem colocar em campo jogadores inexperientes nestas andanças, com o João Moutinho e o Nani. Os resultados não podiam ser outros - extraordinários. Este seleccionador ainda vai levar Portugal a campeão da Europa, senão mesmo do Mundo.
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