«Um dia destes, Sócrates disparou-lhe: 'Nós andamos a falar tanto que você ainda fica desacreditado perante a sua família política...' E Durão terá respondido: 'Deixe lá... Isso já acontece agora...'» - para memória futura convém não esquecermos este pequeno trecho retirado dum reportagem da revista 'Visão' intitulada 'Sócrates privado'. Não sei o que mais será necessário para que se perceba que estas reportagens sobre o lado 'privado' dos homens públicos são o que de mais encenado e menos privado existe mas enfim deixemos esses considerandos para melhor ocasião. ###
Fiquemo-nos apenas pelo 'Deixe lá...' de Durão Barroso para José Sócrates. Um 'Deixe lá...' que pode querer dizer 'Não se preocupe que eu sei tomar bem conta de mim no que à minha família política respeita e à sua também'. Ou um 'Deixe lá...' de profundo fastio perante as mil questõezinhas que entretêm os comuns cidadãos da 'piolheira' e que ao contrário deles, Durão e Sócrates, nunca atendem o telefone a alguém que não seja primo, cunhado, patrão ou na mais cosmopolita das hipóteses a um promotor da TV Cabo ou ao presidente da distrital da zona.
Provavelmente ambas as interpretações serão válidas. E provavelmente vamos lembrar-nos delas dentro de algum tempo. Porque, ao contrário do que Durão Barroso declarou ao'Diário de Notícias', não é na política que o grau de imprevisibilidade é imenso. É sim na vida real que a imprevisibilidade é imensa. A política essa é muito previsível e quer Sócrates quer Durão Barroso se movimentam de modo a que um dia tenhamos de vir a escolher entre um e outro. Até lá vão-se descorporizando do país. Estão sempre em movimento e de tempos a tempos interrompem essa espécie de vertigem que os leva duma cimeira para mais um avião e um encontro com os 'grandes' para mostrarem o tal lado 'privado' que a 'Visão' acha que revela, esse lado que à falta doutra mais substantiva razão, nos sussurra com eficácia 'Deixe lá... que ainda vai votar em mim.'
O Tratado de Lisboa tornou-se o palco-pretexto por excelência não só para que Sócrates e Durão Barroso se 'revelem' mas também para que desse não-lugar que é a UE digam ao país o que proferido internamente lhes traria enormes custos. É este o caso das declarações de Durão Barroso sobre a invasão do Iraque. É assombroso que Durão Barroso tenha ido buscar o exemplo da sua bem sucedida carreira internacional para ilustrar a inocuidade dum assunto que afecta a vida de milhões de pessoas e duma crise diplomática que dividiu no essencial países como a França, a Grã-Bretanha e os EUA que desde a crise do Suez, em 1956, tinham percebido que podiam divergir no acessório mas que não se podiam enfrentar no essencial.
Este passar ligeirinho sobre a invasão do Iraque é uma forma de Durão Barroso encerrar um incómodo capítulo da realidade. O Afeganistão esse já nem suscita a curiosidade dos jornalistas e o entrevistado certamente agradeceu que se passasse a outro assunto. Sobre o Líbano nem uma palavra. E do Kosovo fala Durão Barroso não tanto porque tema que se volte a combater no meio da Europa mas sobretudo porque Putin se impôs como interlocutor incontornável.
Mas se não falarmos sobre as guerras que travámos e travamos jamais seremos capazes de assegurar a paz. E o ciclo iniciado em 1999 com o bombardeamento da antiga Jugoslávia, a que se sucedeu o Afeganistão em 2001 e o Iraque em 2003 está encerrado.
Às invasões militares apresentadas como a concretização das teses do «Rebuilding nations» vão suceder-se as alianças temporárias e flexíveis com alguns ditadores imprescindíveis e ameaças de sanções. Não há soluções perfeitas. Mas sobre isso falaremos depois.
*PÚBLICO, 20 DE NOVEMBRO
21.11.07
Uma história exemplar
«Cugnaux, la commune où il est interdit de mourir par arrêté municipal
Philippe Guérin promet que les contrevenants seront sévèrement sanctionnés.
Par arrêté municipal du 16 novembre, le maire de Cugnaux «interdit à toute personne ne disposant pas de caveau dans le cimetière existant» de mourir sur le territoire de la commune.
Réponse par l'absurde au ministère de la Défense qui vient de donner avis défavorable à l’installation d’un nouveau cimetière sur cette commune de la banlieue toulousaine au motif que celui-ci se trouverait dans le «polygone d’isolement induit par la présence du dépôt de munitions de la base aérienne 101 de Francazal». ###
Le maire, tenu par la loi d’inhumer décemment toute personne décédée, n’a fait que prendre les devants : avec une moyenne de 60 inhumations par an et ne disposant plus que de 200 places dans les deux cimetières existant, il ne pourra bientôt plus enterrer ses administrés.
Après la dernière extension possible de ces deux vieux cimetières, la mairie a identifié trois sites pour en établir un neuf.
Le seul géologiquement praticable est celui, justement, qui jouxte la base aérienne. «Sous les deux autres sites, explique Philippe Guérin, la nappe phréatique est à 1,5 mètres de la surface du sol». Détourner cette nappe reviendrait à des travaux de Pharaon pour des mille et des cents. La construction obligatoire de caveaux étanches coûterait en outre «les yeux de la tête» aux familles.
«On me refuse la construction d’un cimetière, s’étonne le maire. Alors que, plus anciennement mais sur la même zone, la construction d’un supermarché a, elle, été autorisée».
Gilbert LAVAL»
http://www.libetoulouse.fr/2007/2007/11/cugnaux-la-comm.html
Philippe Guérin promet que les contrevenants seront sévèrement sanctionnés.
Par arrêté municipal du 16 novembre, le maire de Cugnaux «interdit à toute personne ne disposant pas de caveau dans le cimetière existant» de mourir sur le territoire de la commune.
Réponse par l'absurde au ministère de la Défense qui vient de donner avis défavorable à l’installation d’un nouveau cimetière sur cette commune de la banlieue toulousaine au motif que celui-ci se trouverait dans le «polygone d’isolement induit par la présence du dépôt de munitions de la base aérienne 101 de Francazal». ###
Le maire, tenu par la loi d’inhumer décemment toute personne décédée, n’a fait que prendre les devants : avec une moyenne de 60 inhumations par an et ne disposant plus que de 200 places dans les deux cimetières existant, il ne pourra bientôt plus enterrer ses administrés.
Après la dernière extension possible de ces deux vieux cimetières, la mairie a identifié trois sites pour en établir un neuf.
Le seul géologiquement praticable est celui, justement, qui jouxte la base aérienne. «Sous les deux autres sites, explique Philippe Guérin, la nappe phréatique est à 1,5 mètres de la surface du sol». Détourner cette nappe reviendrait à des travaux de Pharaon pour des mille et des cents. La construction obligatoire de caveaux étanches coûterait en outre «les yeux de la tête» aux familles.
«On me refuse la construction d’un cimetière, s’étonne le maire. Alors que, plus anciennement mais sur la même zone, la construction d’un supermarché a, elle, été autorisée».
Gilbert LAVAL»
http://www.libetoulouse.fr/2007/2007/11/cugnaux-la-comm.html
EP (á)!
O Relatório de auditoria sobre as Estradas de Portugal E.P.E é um manancial.
Aquilo dá para tudo. Até para por aquela entidade - um Instituto Público Empresarial a pagar a advogados para fazer leis:
«Foi esclarecido pela EP que, relativamente aos trabalhos solicitados pelo MOPTC, de acordo com os termos de referência por este definidos, realizados pelas Jardim, Sampaio, Caldas & Associados, F9 – Consulting e PricewaterhouseCoopers e respeitantes ao modelo de gestão e financiamento do sector das infra-estruturas rodoviárias de Portugal, estes traduziram-se em relatórios de estudos e minutas de propostas de diplomas legislativos, alguns já publicados em Diário da República (minutas da lei orgânica e estatutos do Instituto das Infra-Estruturas Rodoviárias, minuta da RCM n.º 89/2007, de 11de Julho, CD contendo o modelo financeiro do novo modelo de gestão e financiamento do sector rodoviário, minuta do diploma de transformação da EP - Estradas de Portugal, E.P.E., em EP, S.A, minutas do projecto de lei de bases do contrato de concessão e do contrato de concessão a celebrar entre a EP e o Estado.»
Aquilo dá para tudo. Até para por aquela entidade - um Instituto Público Empresarial a pagar a advogados para fazer leis:
«Foi esclarecido pela EP que, relativamente aos trabalhos solicitados pelo MOPTC, de acordo com os termos de referência por este definidos, realizados pelas Jardim, Sampaio, Caldas & Associados, F9 – Consulting e PricewaterhouseCoopers e respeitantes ao modelo de gestão e financiamento do sector das infra-estruturas rodoviárias de Portugal, estes traduziram-se em relatórios de estudos e minutas de propostas de diplomas legislativos, alguns já publicados em Diário da República (minutas da lei orgânica e estatutos do Instituto das Infra-Estruturas Rodoviárias, minuta da RCM n.º 89/2007, de 11de Julho, CD contendo o modelo financeiro do novo modelo de gestão e financiamento do sector rodoviário, minuta do diploma de transformação da EP - Estradas de Portugal, E.P.E., em EP, S.A, minutas do projecto de lei de bases do contrato de concessão e do contrato de concessão a celebrar entre a EP e o Estado.»
O presidente eleito
Diz-se que Chávez deve ser respeitado porque foi eleito. Na verdade, o problema de Chávez é ter sido eleito. Uma vez, duas vezes, três vezes. E já tem tudo preparado para ser eleito uma quarta vez, uma quinta vez, uma sexta vez ...
Mi casa es tu casa
A ética é um tema recorrente nas discussões sobre as relações internacionais. Pelo menos quando estão em causa as relações internacionais dos Estados Unidos. Por exemplo, Mário Soares e José Sócrates têm-nos alertado frequentemente para a necessidade de se colocar os direitos humanos acima de outros valores como o dinheiro e o petróleo. Mas de repente tudo isso se tornou secundário. Será porque se considera que Chávez não é uma ameaça aos direitos humanos ou porque se considera que os elevados critérios éticos só se aplicam aos outros?
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