3.4.07

Custou...

Depois do Público ter feito uma reportagem sobre o assunto, no dia 22 de Março, o país que tem opinião dividiu-se em 2 categorias: os que fingiram que nada aconteceu; e os do costume que clamaram por «pudor», apelaram à «decência» e, deslocadamente, agitaram o valor da «privacidade». Agregados a estes últimos apareceram, pendurados, alguns outros que, cada vez mais obsessivamente, gostam de pensar como os do costume.
O silêncio prevaleceu durante uma semana. Apenas nos media. Nas conversas, as pessoas interrogavam-se, estranhavam e aguardavam respostas.
Teve de ser - o politicamente correcto, cuja patente, nós portugueses, registamos em muitos séculos de simulação tão assimiladamente colectiva que se tornou maquinal, acabou por ceder. Um a um, todos os órgãos de comunicação social começaram a investigar o caso e a descobrir mais desconformidades que exigem esclarecimentos.
O desconforto do poder é mais do que evidente. O mesmo se passa com os "sepulcros caiados" sempre afastados do ritmo do seu tempo, tão patético é o esforço de o quererem compassar.

Manchetes que nunca veremos nos jornais da capital


Texto aqui.
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Nota: a carta não é uma iniciativa do Blasfémias, embora parte dos blasfemos a tenham assinado (ou subscrito a correspondente petição on-line disponível aqui.)

O quê???

«Assessor de ministro envia nota a anunciar novo reitor da UnI que é desmentida»
Um e-mail reenviado por um assessor (aluno finalista nesta instituição) do ministro Augusto Santos Silva (ver caixa) anunciava, na sexta-feira, um novo reitor na UnI. Teria sido um favor a Pedro Silva, assessor da UnI, que, no entanto, disse ontem à agência Lusa que está ausente da escola desde quarta-feira, mas que passou a sua password e e-mail a pessoas dentro da UnI. (...) O comunicado com a nova equipa reitoral da UnI foi enviado do e-mail de Carlos Narciso, assessor do ministro dos Assuntos Parlamentares. Finalista da instituição, Narciso explicou ao PÚBLICO que agiu «a título pessoal». «Se fosse dentista e aluno da UnI ninguém faria alusão à minha profissão. Mas, como sou assessor do Governo, já tentam tirar ilações», sublinhou. Segundo a Lusa, o e-mail, remetido a partir de uma conta de correio electrónico pessoal, foi primeiro enviado a Narciso a partir da conta de e-mail do assessor da UnI Pedro Silva. Mas este nega o envio, alegando ter abandonado a assessoria de imprensa na quarta-feira. «Infelizmente dei o meu login e password a outras pessoas na Universidade», disse à Lusa.» PÚBLICO

Alguém tem de explicar ao assessor Carlos Narciso que exactamente por ele não ser dentista mas sim assessor dum ministro é que não deve mandar mails deste teor e desta maneira

Engenharia eleitoral*

«O líder do PSD foi sondado pelo Governo sobre a possibilidade de socialistas e sociais-democratas se entenderem para dispensar o referendo ao futuro Tratado Constitucional Europeu.» - se esta notícia publicada pelo 'Diário de Notícias' não for uma mentira do 1 de Abril então estamos perante uma tentativa gravíssima mas infelizmente não inédita de fazer engenharia eleitoral.
Por outras palavras após a vitória de Salazar num concurso televisivo, o primeiro-ministro resolveu dar um prémio de consolação ao segundo classificado, Álvaro Cunhal, e ressuscitou o PREC. Tentar evitar a realização das eleições prometidas logo a 25 de Abril de 1974 e, na impossibilidade de as evitar, desvalorizá-las foi uma das estratégias do PCP. Esta estratégia passava por vários campos. Um deles consistiu no apelo ao voto em branco nas eleições para a Constituinte que tinham data marcada para o dia 25 de Abril de 1975. Publicações oficiais faziam claramente a apologia do voto em branco: «É pois necessário deitar o voto na urna, mas esse voto pode ir em branco, isto é, sem referência a qualquer partido, pois deste modo cumprimos o nosso dever de patriotas sem violentarmos a nossa consciência, nem possivelmente voltarmos essa arma contra nós próprios, seguindo aqueles que pretendem continuar a explorar a nossa ignorância politica.» – escrevia-se a 8 de Abril de 1975, escassas semanas antes das eleições para a Assembleia Constituinte, no 'Boletim 25 de Abril', editado em nome do MFA.###
O que levara a este volte-face do MFA? A convicção de que o povo não ia votar 'como devia'. Ou seja, quanto mais se aproximava a data das eleições mais claro se tornava que o PCP e o MDP-CDE não iam ter resultados eleitorais que legitimassem o Processo Revolucionário em Curso. Como bem sabia e escrevia a 5ª Divisão, encarregue da propaganda da ala do MFA afecta ao PCP: «O voto em branco foi portanto, sugerido, em último recurso, depois de se ter concluído que a massa dos eleitores estava entendendo a proclamada opção socialista do MFA como indicação de voto no Partido Socialista; e que esta organização partidária, à medida que a campanha eleitoral se aproximava do seu termo, deixava acentuar as dúvidas quanto à fidelidade ao seu próprio programa, e ao pacto firmado com o MFA.»
Apesar de tudo as eleições aconteceram e o seu resultado, dando a vitória ao PS e colocando o PPD em segundo lugar, levou a que alguns não hesitassem em classificá-las como 'infelizes eleições'. Outros mais pragmáticos passaram então a reivindicar a existência duma dinâmica revolucionária, um processo já em marcha que, de modo algum, podia ser atrasado por uns votos efectuados por pessoas pouco esclarecidas. O voto, acto individual, pouco valia perante a magnitude das massas e a inevitabilidade do processo. Como explicava o então primeiro-ministro, coronel de engenharia Vasco Gonçalves «nós não poderíamos, repito, ir perder por via eleitoral aquilo que tanto tem custado a ganhar ao Povo Português.»
Deite-se fora o palavreado do homem novo e do processo revolucionário e encontramos na questão da constituição europeia a mesma ideia de que existe uma dinâmica que já nada pode travar. E se por acaso alguns povos não votam como devem então há que contornar esse voto. Dispensando-o, por exemplo.
A prosseguirem neste caminho, os dirigentes da UE correm o risco de tornar a Europa uma abstracção muito mais excêntrica aos povos que a constituem do que essa Cuba da Europa que os defensores do 'socialismo à portuguesa' se propuseram construir neste rectângulo, nos idos de 1975.


*PUBLICO, 2 de Abril

Atlântico



Ler também o Blog da Atlântico.

Um imposto é um preço

Escreve Vital Moreira:

Principal argumento de Miguel Frasquilho para a descida imediata de IRC: o imposto sobre os lucros das empresas é muito mais baixo nos países do Leste Europeu (média de 19%) do que em Portugal (25%), o que está a provocar deslocações de empresas de Portugal para esses países.

Ora: (i) os contratos de investimento estrangeiro em Portugal incluem por via de regra uma isenção total ou quase total de IRC, pelo que ninguém deixa de investir em Portugal por causa disso; (ii) a maior competividade do Leste resulta, sim, de mão-de-obra mais barata e com melhores qualificações, o que significa factura de pessoal mais baixa e maior produtividade; (iii) outra vantagem do Leste é a sua maior proximidade do centro da UE, o que significa menos custos de transportes e melhor acesso aos mercados; (iv) a melhor prova de que um IRC mais baixo não dá, só por si, vantagens competitivas está aqui ao lado, na Espanha, que, apesar de um imposto muito superior ao nosso, atrai muito mais investimento estrangeiro.



Portugal é como uma loja com maus produtos a preços elevados e em que o gerente de vez em quando vende umas coisas a preços de amigo a uns estrangeiros endinheirados. A loja do lado tem produos de qualidade e consegue vendê-los a bom preço. As lojas do centro da cidade estão bem localizadas, têm empregados mais simpáticos, melhores produtos e preços mais baixos. Política comercial proposta por muitos: Portugal tem é que manter os preços elevados para todos os clientes excepto para meia dúzia de estrangeiros sortudos.

o povo unido


Eu sou um admirador do Fernando Tordo. Este Domingo ele foi ao programa dos Gatos Fedorentos na RTP1 cantar uma rábula à vitória de Salazar no concurso para o melhor português de sempre, utilizando a música de uma marcha post-25 de Abril ("agora,...o povo unido nunca mais será vencido, nunca mais será vencido...").
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A tese da rábula era a de que a grande vantagem da democracia era a liberdade de expressão e a possibilidade de "dizer mal do governo".
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Se esta é a grande vantagem da democracia, a de dizer mal - e eu penso que muitos portugueses, especialmente os mais jovens, interpretam esta como sendo a grande vantagem da democracia - então, é certo que, a prazo, a democracia não vai vingar em Portugal.