9.11.06

Simplismos

As análises pós-eleitorais são habitualmente simplistas, mas as análises eleitorais das eleições em países estrangeiros são ainda mais simplistas, por razões relacionadas com o total desconhecimento dos problemas que realmente interessam aos eleitores locais. O problema agrava-se no caso das eleições intermédias porque raramente se têm em conta os factores próprios deste tipo de eleições.
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Em 2001, Guterres aproveitou a derrota nas eleições Autárquicas para se demitir. Demitiu-se porque desistiu e não porque os eleitores tenham votado com a intenção de ele se demitir. Os eleitores votaram contra muitos dos presidentes de câmara da época que já se encontravam fora de prazo. No entanto, a intenção dos eleitores foi interpretada a posteriori pelos analistas e muitos não deixaram de ver os votos para as câmaras como uma forma de protesto contra o governo central.

O fenómeno voltou a repetir-se em 2003 na sequência das eleições europeias. Apesar de as eleições serem para o Parlamento Europeu, apesar de os maus resultados do PSD nesse tipo de eleições serem habituais, apesar da grande abstenção, as eleições foram usadas como um indicador de que o eleitorado quis punir o governo. O que é curioso tendo em conta que não foi isso que foi perguntado ao eleitor.

Este abuso do significado do voto é um vício da vida política. O objectivo não é entender a realidade mas condicionar a acção política criando factos virtuais. Estas interpretações têm dois tipos de consequências. Por um lado, o eleitor pode votar irresponsavelmente contra o governo mesmo que a oposição não tenha propostas melhores porque o risco do governo cair é baixo. Por outro, aqueles que votam por motivos estritamente relacionados com a eleição em causa arriscam-se a ver a sua intenção interpretada abusivamente na noite eleitoral.

Na noite eleitoral o objectivo de muitos "analistas" não é perceber ou ajudar a perceber o que aconteceu mas sim usar a sua presença nos meios de comunicação social para condicionar a política pela via da interpretação. É assim que uma derrota se pode converter em vitória e vice-versa.

Quando as eleições americanas são analisadas por europeus estes problemas agravam-se ainda mais porque existe uma predisposição para interpretar o que aconteceu com base nos interesses políticos dos próprios europeus. Um europeu típico imagina que a política americana gira à volta das questões internacionais. Imagina ainda que os Democratas têm políticas alternativas coincidentes com os interesses políticos do europeu típico.

Mas não dá muito trabalho analisar objectivamente os dados disponíveis. E existem muitos dados que contrariam a tese de acordo com a qual o Iraque foi o principal factor que levou os eleitores a votar nos democratas.

O partido Republicano tem vindo a consolidar a sua maioria no Congresso ao longo dos últimos actos eleitorais. É por isso natural que no sexto ano de mandato de Bush, os Republicanos sejam penalizados. Aconteceu o mesmo com quase todos os presidentes americanos. Parte da perda de votos explica-se pelo cansaço do eleitorado em relação a quem está no poder. Acontece o mesmo em todos os países do mundo. Os temas de campanha funcionam apenas como pretexto para expressar esse cansaço.

Um segundo factor a ter em conta é o resultado das sondagens à boca de urna em que os próprios eleitores explicam as suas razões. E o que os próprios eleitores disseram foi que as suas principais preocupações são a corrupção, o terrorismo, a economia e Iraque. Exactamente por esta ordem. Ao contrário de um europeu típico, o americano típico acha que os problemas da corrupção, do terrorismo e da economia são mais importantes que a questão do Iraque.

Um terceiro factor a ter em conta é a derrota de republicanos que se opuseram à invasão do Iraque. Se o Iraque foi um factor, porque é que os eleitores decidiram penalizar precisamente aqueles republicanos que votaram contra a invasão?

Finalmente, alegar que o que os jornais dizem ou o que Bush diz ou faz comprova a tese da importância da guerra do Iraque nestas eleições é uma forma preguiçosa de analisar a política. Já todos sabemos que tanto os jornais como os políticos fazem política e não análise política. As suas acções e opiniões devem ser analisadas tendo em conta que são actos políticos com segundas intenções. Os jornais fazem determinadas interpretações porque têm uma agenda política que é diferente da dos eleitores. E Bush responde aos jornais não porque eles tenham razão mas porque é preciso dar-lhes alguma coisa para eles se calarem. Neste ambiente, a demissão de Rumsfeld vem mesmo a calhar. Rumsfeld é o bode expiatório ideal para que nada de fundamental mude. O presidente finge que está a resolver o problema, os democratas fingem que se está a seguir "a new direction", os jornais fingem que contam e os europeus vêem confirmadas as suas teses simplistas.