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10.4.07

Encerramento da Independente

No essencial tudo dependende de um político. É um político que decide se uma universidade deve fechar ou não. É um político, não é uma assembleia, nem um juiz, nem o mercado, nem uma autoridade reguladora independente, nem um tribunal. De todos os procedimentos possíveis para o encerramento de uma universidade, dificilmente poderia haver um mais arbitrário.

8.3.07

Uma semana na vida de um bloguista

Uma semana dedicada a combater duas ideias erradas:

1. a de que existem várias verdades;

2. e a de que uma autoridade centralizada é a melhor forma de descobrir a verdade.

Curiosamente, há defensores da primeira que me acusam de defender a segunda e defensores da segunda que me acusam de defender a primeira. Está difícil de explicar que:

1. uma coisa é existência da verdade única outra é a existência de uma autoridade que a tenha descoberto e outra ainda é a existência de uma certeza sobre qual a autoridade que detém a verdade;

2. uma coisa é defender que a existência de um monopólio da autoridade académica prejudica a busca da verdade, outra é considerar que todas as autoridades têm igual valor.

Inbreeding corporativo

As corporações e os sindicatos tinham parecenças com as ordens religiosas da Igreja.

Mas as corporações são socialmente úteis?

Claro que são. Veja-se que a Saúde dos portugueses ainda é garantida por um dos vestígios do corporativismo.

Como assim?

A Ordem dos Médicos. Se não fosse a Ordem dos Médicos os portugueses seriam enganados pelo primeiro charlatão que lhes aparecesse.

Como assim?
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A Ordem dos Médicos garante que apenas os bons médicos possam dar consultas e que apenas as boas universidades possam formar médicos.

Sim, mas como é que podemos ter a certeza que a Ordem dos Médicos faz uma avaliação correcta?

Porque a Ordem dos Médicos é constituida por médicos criteriosamente seleccionados.

Seleccionados por quem?

Pela ordem dos médicos.

Não haverá conflito de interesses?

Não, porque os membros da Ordem dos Médicos também são avaliados pelas universidades.

E quem avalia as Universidades?

A Ordem dos Médicos.

Mas as pessoas que estão na Ordem dos Médicos não são também as que estão nas Universidades?

Algumas são, mas sabe que é muito difícil encontrar pessoas de qualidade ...

Suponho que é por isso que muitas delas partilham os mesmos apelidos?


Exacto. A qualidade vai na família. É genético. Há um estudo da Ordem dos Médicos que o comprova ...


E não seria melhor que as universidades fossem avaliadas por autoridades estrangeiras?


Nope. As autoridades estrangeiras não são tão exigentes quanto as portuguesas.

E quem chegou a essa conclusão?

A Ordem dos Médicos.

Mas a Ordem dos Médicos não é avaliada por autoridades estrangeiras ...

Nem faria sentido. A nossa Ordem dos Médicos é a melhor do mundo.

Quem o diz?

Há um estudo universitário que o comprova.

Os médicos não são quem mais tem a ganhar com a existência de critérios excessivamente rigorosos à entrada da profissão? Esse factor não influencia as decisões da Ordem dos Médicos?

Os médicos preocupam-se apenas com a saúde do doente.

Mas certamente que existem grupos mal intencionados ...

Impossível. A Ordem dos Médicos é muito rigorosa nessa questão.


A abertura das universidades à concorrência privada não seria vantajosa para o consumidor de serviços de saúde.


Nope. Iria degradar a qualidade.

Quem diz?

A Ordem dos Médicos.

A abertura das ordens profissionais à concorrência não contribuiria para melhorar a aficiência da certificação?

Há um estudo realizado por um Catedrático de medicina que prova que a eficiência iria piorar.

Inbreeding

O Estado [Novo] era servido, em geral, por pessoas de elevada craveira [...]

Como é que sabemos que essas pessoas tinham elevada craveira?

Porque outras pessoas com elevada craveira diziam que sim.

Como é que sabemos que essas outras pessoas tinham elevada craveira? Havia algum tipo de escrutínio público?
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Nada disso. Sabemos porque essas outras pessoas diziam umas das outras que tinham elevada craveira.

E como é que sabemos que não estavam todos a mentir?

Porque Salazar dizia que todos tinham elevada craveira.

Sim, mas porque razão podemos confiar no juízo de Salazar?

Porque a Universidade de Coimbra dizia que o Salazar tinha elevada craveira e os militares do 28 de Maio acreditaram.


A Universidade de Coimbra não validava apenas a craveira de Salazar, pois não?


A Universidade de Coimbra era o garante da craveira de todas as personalidades do regime.

Mas a Universidade de Coimbra podia estar errada, não?

É impossível. Os catedráticos da Universidade de Coimbra zelavam pela integridade da Universidade de Coimbra.


E quem zelava pela integridade dos catedráticos da Universidade de Coimbra?


Outros catedráticos antes deles.

Mas alguma vez algum desses catedráticos viu as suas teorias confrontadas com a realidade?

Não, é só catedráticos pelos séculos e séculos ...

Consegue-me explicar porque é que a Universidade de Coimbra entrou em decadência após o 25 de Abril?

...

5.3.07

Pequena dificuldade

Deus como fonte de autoridade até poderia resultar, se Ele existisse, claro ...

3.3.07

Eu, Borgia

Num post mais lá para baixo Pedro Arroja escreve que "no campo desportivo [o clube de maior sucesso] foi o F.C.Porto (tem um papa)". Esta analogia ajuda-nos a perceber uma das características que contribui para a autoridade do verdadeiro Papa: a castidade.


2.3.07

A direita, a educação e a autoridade VII

O caso da professora que apanhou porrada de uma mãe e que, como brinde, ainda apanhou com um processo disciplinar instaurado pelo Conselho Executivo da sua escola (notícia do Público: Escola de Ovar instaura processo disciplinar a professora agredida por mãe de aluno) é mais uma prova de que no sistema de ensino há "autoridade". Assim se mostra que quem manda é a hierarquia. "Apanhar com um processo" é a expressão certa se tivermos em conta que nestes processos o funcionário público encontra-se em posição de desigualdade de armas ficando sujeito ao arbítrio da hierarquia. Note-se que de acordo com a notícia do Público, a mãe agressora continua a ter permissão para entrar na escola onde se deu a agressão. O que me leva a concluir que há "autoridade" e que ela é exercida, só que não está a resultar. Porquê?

A direita, a educação e a autoridade VI

As acusações de falta de autoridade no ensino são curiosas se tivermos em conta que muitos dos críticos têm o sistema de ensino do Estado Novo como modelo. É que o actual sistema de ensino tem uma estrutura piramidal herdada do Estado Novo. Actualmente os Conselhos Executivos das escolas não têm programa próprio, limitam-se a executar as directivas do Ministério. Os professores, conselhos executivos e direcções regionais não têm poder de inciativa. Estão sujeitos às ordens da hierarquia. É este sistema que permite, por exemplo, que a actual Ministra da Educação consiga que as suas ordens ilegais sejam cumpridas. Já o conseguiu em 2 casos: na questão das aulas de substituição e no caso dos exames de física e de química em 2006. Neste último caso o secretário de estado Valter Lemos ordenou a suspensão de uma lei através de um mero despacho interno e foi abedecido pelas escolas. Creio que isto mostra que o Ministério da Educação tem imensa "autoridade", ou não? O secretário de estado Valter Lemos tem tanta autoridade que até está acima da Lei. Ou será que tem apenas "poder" e o problema está na forma como o usa? Ou se calhar aquilo que o sistema precisa é de menos autoritarismo e não de mais. Escolas e professores mais autónomos e com poder de iniciativa, quem sabe ... Pessoas e instituições capazes de desobedecer ao arbítrio, alguém acha que é necessário? Essencial para a manutenção da Liberdade?

1.3.07

A direita, a educação e a autoridade V

O Procurador Geral da República apareceu na TV a falar da hipótese de transformar as agressões a professores em crime público. Este é o tipo de solução que se propõe quando não se sabe o que fazer. Não interessa se a medida é juridicamente justificada ou não. O que interessa é que se faça algo que aparente resolver o problema.

E nem sequer existem razões jurídicas para tratar as agressões a professores de forma diferente da forma como são tratadas outras agressões. Crime público porquê? Porque o professor é um agente do estado? Porque é incapaz de fazer ele próprio uma acusação? Porque as escolas não protegem juridicamente os seus professores? Porque o Ministério da Educação também não o faz? Este é o tipo de "solução" que, não contribuindo para resolver um problema, agrava vários. Estatiza ainda mais o ensino e desresponsabiliza o professor, as escola e o Ministério da Educação.

A direita, a educação e a autoridade IV

As indisciplina nas escolas não é apenas uma consequência das ideias esquerdistas que se instalaram no sistema de ensino. É preciso perceber como é que essas ideias se instalaram tão facilmente. A razão é simples. O Estado Novo criou instituições incapazes de lidar com a liberdade. Istituições que se valiam da prepotência e que apenas poderiam funcionar em ditadura. Quando a prepotência deixou de poder ser usada como forma de controlo da indisciplina e como forma de imposição do "saber", sobrou o vácuo. Para tapar esse vácuo a direita tinha para oferecer o mesmo de sempre, ou seja, não tinha nada. A esquerda tinha o eduquês. Ficou o eduquês.

A direita, a educação e a autoridade III

Para além de existirem alunos que batem nos professores, também continuam a existir casos, muitos mais, diga-se, de professores que batem nos alunos. Se o caso de alunos que batem nos professores é compreensível tendo em conta o estado de imaturidade dos ditos, já a existência de professores que se acham no direito de bater nos alunos revela uma prepotência cujas origens remonta à tradição autoritária herdada do Estado Novo.

A direita, a educação e a autoridade II

Uma das instituições do ensino no Estado Novo era o uso de castigos físicos para punir a indisciplina e o erro académico. O que por si só servia para ensinar duas coisas aos alunos:

- que a disciplina não é a atitude normal numa sociedade civilizada mas sim o resultado da ameaça permanente do uso da força por parte de um déspota;

- que, quando estão em causa questões académicas, o uso da força é mais legítimo que a argumentação racional.

O que contribuiu para formar pessoas:

- mal preparadas para viver numa sociedade aberta e democrática em que a disciplina depende muito mais da responsabilidade individual;

- mal preparadas para o debate intelectual próprio de uma sociedade aberta e democrática.

A direita, a educação e a autoridade

A direita portuguesa herdou do Estado Novo uma concepção da educação de acordo com o qual a autoridade do professor emana, não do seu mérito, mas da posição que ocupa. Ora, este modelo deixou de ser possível a partir do momento em que o Estado deixou de poder usar os meios coercivos que usava para dominar o corpo docente e a sociedade. Nem a sociedade está disposta a aceitar autoridades que não têm que se justificar nem o próprio corpo docente está disposto a desempenhar esse papel. Por outro lado, a direita portuguesa compartilha com a esquerda a ideia de que a micro-gestão da escola é um assunto político e que por isso a disciplina nas escolas deve ser tratada pelo próprio Ministro da Educação. A direita, tal como a esquerda, não reivindica liberdade de ensino, não reivindica a autonomia das escolas em matéria educativa e disciplinar. A direita, tal como a esquerda, espera que o seu modelo autoritário seja aplicado uniformemente em todas as escolas por ordem do Ministério da Educação. A direita, tal como a esquerda, espera que os conteúdos da sua preferência sejam os únicos a ser leccionados em todas as escolas do país. É isto que a direita tem a oferecer em matéria de educação. O regresso à escola autoritária do livro único e da propaganda de direita.

28.2.07

Pedir mais autoridade é o caminho mais curto para a tirania

Nenhum sistema público pode funcionar bem sem um bom sistema de selecção e controlo dos dirigentes e funcionarios. E um bom sistema de controlo nunca pode ser gerido por aqueles que é suposto controlar. Nunca pode funcionar em pirâmide porque o topo da pirâmide nunca é controlado mas é o ponto que mais vulnerável e que mais necessita de controlo. É o ponto cujos erros têm as piores consequências mas é também o ponto que não precisa de dar satisfações a ninguém. É por isso extraordinário que quando um sistema piramidal de controlo e selecção produz maus resultados se peça "autoridade". Até porque o que na realidade o que se está a pedir é que se dê mais poder a quem está nos lugares mais elevados da pirâmide, fora de qualquer controlo, e não foi capaz de conquistar autoridade pelos seus méritos próprios. Note-se que, enquanto um incompetente sem poder é apenas um incompetente sem autoridade, um incompetente com poder é um tirano incompetente e sem autoridade.

A grande questão da "autoridade do professor"

Esta diferença entre direita tradicional e liberalismo também ocorre nas ideias que cada uma das correntes tem para o ensino. A direita tradicional acredita que o principal problema do ensino é a falta de autoridade do professor. Para resolver este problema propõe a pior de todas as soluções. Confunde autoridade com poder e propõe-se dar poder aos professores pensando que assim lhes dá autoridade. Ora, como nesta questão a distinção importante não é entre professores com autoridade e professores com falta dela mas entre bons e maus professores, a solução tenderá a agravar o problema. Isto porque um mau professor com poder fica pior e um bom professor com poder fica igual. Um mau professor com poder não é respeitado por lhe ser reconhecida autoridade, é respeitado porque os alunos têm medo dele. Note-se que um idiota com poder continua a ser um idiota, mas é um idiota mais perigoso. Por outro lado, um bom professor verá a sua autoridade ser reconhecida desde que exista liberdade de escolha no sistema.
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A solução liberal é muito mais subtil. Os liberais não alegam saber qual é o problema do ensino, mas isso também não os impede de propor uma solução porque seja qual for o problema, a solução tem que passar pela liberdade de escolha. O problema da autoridade do professores não se resolve dando indiscriminadamente poder a todos os professores, resolve-se se os professores e as escolas tiverem que competir uns com os outros pelos alunos. Desta forma garante-se que só será reconhecido como autoridade quem de facto o merecer.

A desordem gera déspotas esclarecidos?

Na questão da autoridade, a diferença entre o liberalismo e a direita tradicional é que enquanto a direita tradicional acredita que sem autoridade não há nem liberdade nem ordem, o liberalismo pergunta como é possível que a desordem e a coerção possam gerar autoridades iluminadas capazes de criar ordem e liberdade. Milagre.

23.2.07

Algumas perguntas

1. O que distingue uma autoridade legítima de uma ilegítima?

2. Podemos confiar numa autoridade que não se deixa escrutinar?

3. O estado tem um papel principal ou meramente supletivo na manutenção da ordem pública?
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4. De onde vem a sabedoria e a inteligência de uma autoridade que se diz melhor que o povo que governa mas que não foi sujeita a nenhuma prova das suas capacidades?

5. Porque é que haveriamos de acreditar que as pessoas boas, inteligentes e íntegras foram todas para o governo?

6. As qualidades que levam as pessoas a respeitar os seus compromissos são impostas pelo estado ou são o produto evolucionário gerado por mecanismos à microescala?

7. Se são o impostas pelo estado, devemos concluir que a Engenharia Social funciona?

8. Foi o estado que inventou o direito?

9. A comunidade internacional não é um exemplo de uma sociedade sem estado?

10. Se o estado é absolutamente necessário para a manutenção da ordem, devem os liberais defender a criação de um estado mundial?

11. O federalismo não será uma forma de ordem que não deriva de nenhum estado em particular? Um caso de ordem sem autoridade?