1.4.04

A próxima elefantíase

O País que temos é um alegre e irresponsável coleccionador de elefantes brancos, como temos visto e sentido desde há décadas. Ficamos com o ego inchadíssimo quando construímos um Centro Cultural ao nível dos melhores da Europa (?), realizamos uma Expo-98 que põe o mundo a falar de nós (??), construímos 10 sofisticados estádios para o Euro-2004, a maioria dos quais ficará depois votada ao abandono (!!!). No meio de toda esta embriaguês por tudo quanto seja obra faraónica, ninguém se preocupa com os custos, encobertos que vão sendo pelos milhões que ainda vão chegando da União Europeia.

E isto não pára! Ainda o Euro-2004 se encontra na fase final de gestação e já outro elefante se anuncia na fase embrionária, tudo apontando que será, naturalmente, tão alvo como os anteriores e ainda mais mastodôntico. Refiro-me, claro, ao aeroporto da Ota, que traz o PS (e talvez não só) tão preocupado, vá lá saber-se por conta de que interesses. À semelhança do que ocorreu com os seus irmãos mais velhos, as razões para o gerar não são claras nem evidentes. Têm-se divulgado basicamente duas: a previsível saturação do aeroporto de Lisboa e, para dilatar o ego, a necessidade de se construir em Portugal uma “plataforma aeroportuária intercontinental”. Bonito! Nem Miguel de Vasconcelos resistiria a tamanho fervor patriótico!

Mas desmitifiquemos, começando pela saturação a prazo da Portela. Presentemente, serão raras as pessoas utilizadoras frequentes deste aeroporto que alguma vez se tenham deparado com uma situação de claro congestionamento. É óbvio que isso não é relevante, mas sim confrontar a capacidade actual do equipamento com as projecções de crescimento de tráfego, tentando assim determinar em que altura ele atingiria a saturação. E neste caso haveria que decidir entre as hipóteses de construção de um novo aeroporto ou investimentos de expansão e beneficiação do actual, tendo sempre em atenção que os estrangulamentos podem ocorrer ao nível das capacidades das pistas e(ou) das infraestruturas de apoio (aerogare, sistemas de transportes de/para o aeroporto, congestionamento viário provocado por este, etc). Facto é que, até à data, jamais foi tornado público qualquer estudo que demonstrasse de forma clara não ser possível, obviamente que com menores custos, aumentar a capacidade da infra-estrutura actual. O aeroporto da Portela, com 2 pistas (que se cruzam), movimentou no ano transacto 112.453 aeronaves (aterragens e descolagens) e 9,6 milhões de passageiros, claramente abaixo das 234.899 aeronaves e dos quase 30 milhões de passageiros que transitaram por Gatwick, o 6º maior aeroporto europeu e que opera com uma única pista. Custa-me a crer que, com alguns investimentos ao nível da aerogare e eventualmente ao nível das pistas no sentido de eliminar o cruzamento, potenciando assim a possibilidade de aterragens e descolagens simultâneas, não se pudesse ultrapassar claramente aquela fasquia. Por outro lado, e isto já foi sugerido por vários especialistas, a saturação poderia ser “retardada” com o desvio dos voos de carga e “charters” para Alverca e (ou) Montijo, maximizando-se assim a utilização de estruturas já disponíveis. Refira-se ainda que, no que concerne ao tráfego de passageiros, os níveis actuais de Gatwick seriam atingidos: em 12 anos se considerarmos um crescimento médio anual ultra-optimista de 10%; em 30 anos, se considerarmos o crescimento médio do tráfego nos últimos 5 anos, da ordem dos 3,8%.

O desejo de construir uma “plataforma intercontinental” é verdadeiramente surrealista e hilariante, como se estas coisas andassem ao sabor dos desejos dos nossos governantes nacional-populistas. Quer isto dizer que um grande aeroporto não se gera por decreto, mas é o resultado, basicamente, de se verificarem um ou ambos os requisitos seguintes:
a) situar-se numa área densamente povoada - e, já agora, que as pessoas disponham de poder de compra q.b. para viajarem de avião;
b) ser placa giratória, ou seja fazer adequadamente as ligações entre voos de pequeno e de longo curso, podendo estes ser ou não intercontinentais.
A verificação simultânea destes dois requisitos potencia aeroportos gigantescos. É o caso de Chicago, Los Angeles, Londres, Tóquio ou Paris. Dentre os dois requisitos, o mais relevante é de facto o segundo e constitui o objectivo que se pretende atingir com a Ota. Mas, mais uma vez, também aqui as coisas não se decretam. Entre outras condições, um aeroporto só será placa giratória (ou “hub”, na terminologia anglo-saxónica) se:
1º - Estiver perto, ou seja, se num raio de 2 a 3 horas de voo residirem dezenas de milhões de pessoas que o possam utilizar para as ligações de longo curso;
2º - Que uma grande companhia aérea faça do aeroporto o seu centro de operações.

Ou seja, é de certa forma irrelevante a população da área metropolitana em que se situa o aeroporto para que este seja um “hub”. É assim que cidades como Atlanta, Dallas, Denver, Phoenix, Las Vegas, Houston, Minneapolis ou Miami, qualquer uma delas com menos de 4 milhões de habitantes, têm aeroportos que estão entre os 20 maiores do mundo. Qualquer um deles serve áreas circundantes muito populosas, qualquer um deles é um centro de operações das maiores companhias aéreas americanas. Atlanta/Hartsfield é de resto, desde há vários anos e de forma destacada o maior aeroporto do mundo, com quase 80 milhões de passageiros/ano. E isto acontece sobretudo porque lá se encontra sediada a Delta Airlines, a maior transportadora aérea do mundo em termos de passageiros transportados, qualquer coisa como 110 milhões/ano. Na Europa, o caso mais paradigmático é Frankfurt, um aeroporto onde quase todos circulam, mas poucos desembarcam.

Preenche de facto Lisboa todos os requisitos acima referidos? Quanto a população e considerando aqui a residente num raio de 150 kms, estaremos a falar de pouco mais de 3 milhões de habitantes. A este título, refira-se o superior potencial de Pedras Rubras, com uma área de influência bem mais populosa, cerca de 4,5 milhões de habitantes, mas condenado talvez irreversivelmente ao ostracismo pela conveniência de desviar tráfego para Lisboa. Quanto aos requisitos de placa giratória, “está perto”? De forma alguma. Estamos na periferia da Europa e perto só se for de África para onde os fluxos são irrelevantes. Existe algum tráfego interessante para o Brasil, mas com crescimento difícil de manter se as grandes companhias europeias decidirem ser mais agressivas naquele mercado. Quanto a ter sediada uma grande transportadora, enfim... Não será a TAP, em permanente estado de pré-falência e com os seus míseros 5 milhões de passageiros/ano que irá potenciar um “hub”.

Lembremo-nos ainda que, para plataforma intercontinental, temos Madrid aqui ao lado, o 5º maior aeroporto da Europa, movimentando mais de 35 milhões de passageiros/ano, com investimentos em curso que o irão dotar de capacidade até 70 milhões e com uma posição já consolidada como o principal “hub” europeu para a América Latina. Nestas coisas, a dimensão, a tradição e as economias contam e as relações entre a Espanha e a América Latina superam claramente, seja qual for o indicador considerado, as que temos com o Brasil.

Em síntese, Lisboa será sempre e fundamentalmente um ponto de destino e jamais de passagem para transbordo. Não se descortinam pois razões objectivas que justifiquem o investimento megalómano que se pretende fazer na Ota – estaremos a falar em valores sempre acima dos 2.500 milhões de euros. Os utilizadores do transporte aéreo, os primeiros e principais destinatários de uma estrutura desta, ficarão claramente penalizados face à situação actual: os residentes em Lisboa porque terão de se deslocar mais de 60 kms, os residentes nas áreas de influência de Porto e Faro porque serão obrigados a fazer cerca de 300 kms até à Ota. Os aeroportos de Porto e Faro tenderão a definhar à medida que forem descontinuados voos directos de que hoje beneficiam para os principais “hubs” europeus. Sacrificar-se-á o bem estar e a bolsa dos cidadãos para, de forma artificial, gerar tráfego na Ota.

“Construam-me, porra!” Com esta interjeição, muitas vezes dita e escrita, pedia-se o nascimento do “elefante” Alqueva. Para a Ota, um “mamute” ainda em embrião, será uma atitude patriótica, humanista, solidária, exigir apenas: abortem-no, porra!!!